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            sábado, outubro 25, 2008

    "A COISA"

    Artigo publicado no jornal "Notícias da Amadora" por ocasião do seu 50º aniversário.


    Encontrei há tempos os resultados de um trabalho elaborado por uma importante empresa de estudos de mercado, segundo o qual mais de 47% dos portugueses lêem habitualmente jornais regionais.

    O número é em si impressionante: quase metade dos cidadãos deste país lêem, ou pelo menos folheiam, um dos cerca de 900 títulos da imprensa local ou regional que se publicam em Portugal.

    Mas o que mais surpreende naquele estudo é a revelação de que a audiência total da imprensa regional ultrapassa, largamente, o número de leitores dos jornais nacionais, nestes se incluindo todos os grandes diários, semanários e até a imprensa desportiva ou cor-de-rosa.

    Os números divulgados no estudo evidenciam a força que a imprensa regional continua a ter no nosso país, ainda que a sua importância seja muito diferenciada de região para região. Em todo o caso, a comunicação social de âmbito regional desempenha um papel central na informação das populações e na formação de opinião, particularmente no que diz respeito a assuntos de natureza local, que dificilmente têm espaço num jornal nacional ou, muito menos, num noticiário televisivo.

    Talvez por isso, alguns dos autarcas deste país desenvolveram uma relação muito particular com os jornais que se publicam nas suas terras. Casos há em que o jornal local é premiado com generosos anúncios da Câmara Municipal ou das Juntas de Freguesia, por vezes complementados com publicidade paga pelos empresários do regime. Um balão de oxigénio que lhes permite sobreviver, numa conjuntura que é reconhecidamente difícil. Já os mais mal comportados são submetidos à asfixia e ao abandono, na esperança de que assim sejam forçados a encerrar as portas.

    De facto, um pouco por todo o país o fluxo publicitário proveniente dos paços do concelho é, por norma, inversamente proporcional ao pluralismo e à liberdade de expressão. Para um certo tipo de autarcas, um jornal livre é coisa perigosa e sem préstimo, enquanto um jornal que dê voz às oposições é, obviamente, para fechar, sem apelo nem agravo.

    Infelizmente, esta visão boçal e doentia do regime democrático vai fazendo o seu caminho, num país onde a mexicanização da vida política local parece ser incompatível com uma imprensa verdadeiramente livre.

    Quanto à Amadora, o Partido Socialista não tem que se preocupar, porque a comunicação social local tem vindo, aos poucos, a ser varrida do mapa.

    Talvez para tentar tirar partido do espaço deixado pelo Notícias da Amadora, pelo Grande Amadora ou pela Rádio Mais, surgiu recentemente no concelho uma COISA com nome de televisão e divulgação via internet. A ideia parecia ser interessante, mas cedo se percebeu ao que aquilo vinha.

    A COISA tem o apoio da Câmara Municipal e de cinco Juntas de Freguesia geridas pelo Partido Socialista. Desconhece-se em que termos a COISA é apoiada, mas a verdade é que o sítio na internet exibe orgulhosamente um extenso friso de apoios institucionais, que cedo levantaram suspeitas.

    A confirmação veio pouco depois: a linha editorial da COISA não deixa margem para equívocos. A título de exemplo, no aniversário do município, porventura o momento político mais importante do ano na cidade, a COISA fez uma reportagem em que dedicou quatro minutos ao Partido Socialista e quatro segundos à oposição. Uma cobertura “à angolana”.

    E se eu falo da COISA, não é por ela ser relevante sob o ponto de vista jornalístico. Em boa verdade, uma parte do que ali se faz não é sequer jornalismo. O problema é que a COISA traduz uma certa forma de fazer política, incompatível com um país europeu do século XXI.

    Vem esta reflexão a propósito do 50º aniversário do Notícias da Amadora, efeméride que se comemora no dia 25 de Outubro de 2008. Com uma longa história de resistência que é unanimemente reconhecida, o Notícias da Amadora foi ao longo de muitos anos um interessante exemplo de tolerância e pluralismo, dando voz a diferentes correntes de opinião, mesmo àquelas que claramente divergiam da linha editorial traçada pela direcção do jornal.

    Há quem pense que a cidade ficou a ganhar com o interregno na publicação do Notícias da Amadora. Eu estou certo que sem o jornal todos ficámos a perder. É por isso tempo de pensar no regresso às bancas do Notícias da Amadora.


    João Castanheira
    Presidente do CDS-PP Amadora
    jcastanheira@netcabo.pt

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      sábado, outubro 27, 2007

    O DIVÓRCIO - Opinião

    Regressei há dias a Amarante, terra natal de Agustina, Amadeo de Souza-Cardoso, Teixeira de Pascoaes e tantos outros vultos da nossa cultura. Voltei a percorrer o empedrado das ruas do centro histórico, voltei a surpreender-me com a beleza do Tâmega, com a força do convento e da ponte de São Gonçalo, com a dignidade das gentes, com o carácter de uma velha urbe onde apetece ficar.

    Nas ruas da cidade encontrei o bulício habitual. Gente que sai das igrejas, gente que entra nas lojas, crianças que correm pela ponte, mulheres calcorreando velozmente as calçadas, homens que conversam nas esplanadas, namorados que se abraçam nos jardins e, lá em baixo, a água do rio que corre imperturbável rumo ao Douro. A vida não pára em Amarante.

    Tenho por aquela cidade uma admiração especial. Uma admiração reforçada no dia em que o povo decidiu infligir uma humilhante derrota autárquica ao inenarrável Senhor Avelino. Uma vergastada democrática aplicada no mesmo dia em que as elites de Oeiras reelegiam Isaltino e em que o operariado de Felgueiras se ajoelhava perante a sua Fátima. Naquele dia, foi de Amarante que veio um sinal de esperança. É verdade que respirei fundo, mas eu sempre soube que a dignidade daquela gente jamais seria trocada por uma voltinha de helicóptero ou por uma jantarada ordinária.

    Quando visito uma cidade, gosto de me misturar com a sua gente. Sento-me numa esplanada, peço um chá e uma torrada e deixo-me ficar a escutar as conversas. Em Amarante fala-se do Futebol Clube do Porto mas também se discute a carreira do Amarante Futebol Clube, que lidera o campeonato nacional da 3ª divisão. Discute-se apaixonadamente o projecto de construção da barragem de Fridão e o aumento da cota da barragem do Torrão, obras que, a serem concretizadas, destruiriam grande parte da beleza do vale do Tâmega. Pelas mesas circulam o Jornal de Notícias e a Bola, mas as horas também são passadas a folhear o Jornal de Amarante e o Tribuna de Amarante. Comentam-se as notícias da cidade, lê-se que em breve serão concluídas as obras de reabilitação dos antigos paços do concelho de Santa Cruz de Ribatâmega. “Finalmente!” exclama alguém com ar indignado.

    É assim a vida em Amarante, é assim a vida em qualquer cidade em que as pessoas tenham orgulho em viver.

    De regresso à Amadora pensei no quão longe estamos daquela realidade. Falta-nos o Marão, falta-nos o Tâmega, mas falta-nos, infelizmente, mais do que isso.

    Se conseguir encontrar uma esplanada frequentável, o que só por si não será tarefa fácil, ouvirei discutir o Benfica e o Sporting, mas dificilmente alguém se debruçará sobre o último jogo do Estrela da Amadora, clube que apesar de tudo está entre os maiores do nosso futebol. Ao meu lado, estará alguém a folhear apressadamente o Metro, o Destak ou o Dica da Semana, mas ninguém folheará o Grande Amadora, que já acabou, o Notícias da Amadora, cuja versão impressa já não se publica ou Jornal da Amadora, que embora exista ninguém lê.

    Há na Amadora um profundo défice de amor pela cidade. Quantos de nós já visitaram os aquedutos e as mães de água que se espalham pelo concelho? Quantos de nós já tiveram oportunidade de conhecer a Necrópole de Carenque? Quantos de nós já se aventuraram num passeio pela lindíssima Mata da Fonte Santa? Quantos de nós tentaram visitar um moinho de vento, ex-libris deste concelho? Quantos de nós passearam recentemente pelo Jardim das Águas Livres? Quantos de nós se sentaram na esplanada do Parque Central, lendo um belo livro e observando os patos que passeiam as suas crias?

    Imagino que poucos Amadorenses o tenham feito. Mas quem tentar fazê-lo vai, invariavelmente, bater com o nariz na porta. É que o aqueduto está fechado, a Necrópole de Carenque está vedada, a Mata da Fonte Santa está abandonada, os moinhos de vento estão em ruína, o Jardim das Águas Livres é uma fortaleza impenetrável e a esplanada do Parque Central, propriedade da autarquia, foi fechada há vários anos. São portanto as instituições e, muito em particular, a Câmara Municipal da Amadora quem promove o DIVÓRCIO entre os cidadãos e a cidade.

    A nossa história, o nosso património, as nossas tradições – traços de que se faz a identidade de um povo – são considerados coisa menor. Detalhes irrelevantes, que sucumbem perante a urgência da grande empreitada.

    Quanto à imprensa local, o raciocínio rudimentar de muitos dos nossos autarcas leva-os a considerá-la dispensável, a menos que colabore mansamente com o poder. Por outras palavras, jornal que se deixe meter no bolso é para apoiar, jornal que ouse afirmar a sua autonomia face ao poder político é para fechar. É o mesmo Portugal pequenino e bolorento que se revela em episódios como o saneamento político do professor Charrua ou a visita policial à delegação sindical da Covilhã. É um Portugal que mete dó.


    João Castanheira
    Presidente da Comissão Política
    Concelhia da Amadora do CDS-PP
    jcastanheira@netcabo.pt
    In Notícias da Amadora

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